sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

A caixa.

1.
Aqui nesse quarto a luz é fallha, apaga e acende a toda a hora. É incrível como todas as coisas tão grandes para nós são sempre coisas tão pequenas. Meu avô morreu, e o agente funerário disse: "aqui estão os pertences pessoais" enquanto me estendia uma caixa.
2.
E lá estava a caixa: Sua carteira, com documentos, cinqüenta reais que eu nunca gastaria. Três vale-transportes que jamais me levariam a qualquer lugar físico. Um isqueiro em vermelho-vinho. Uma carteira de Marlboro vermelho que jamais fumaria.
3.
A caixa era meu avô. A caixa, era tudo que ele representava. A caixa era a voz rouca, os dentes amarelos de tabaco e os cabelos brancos. A caixa era o Marlboro vermelho, era a fumaça forte. A caixa, também era o caixão do meu avô.
4.
Vou até a varanda com o Marlboro vermelho em uma das mãos. Na outra, o isqueiro vermelho-vinho.Pego um Marlboro vermelho (ele também vira o último cigarro). Não acendo, coloco de volta na caixa. Pego outro cigarro, um camel, pra lembrar da ex-namorada.
5.
Lá estou eu na varanda, morrendo aos poucos em mim. Lá estou eu esperando que o cigarro me faça ser metade do que meu avô foi. E então, medo. A caixa está na minha frente, e quem sabe a vida seja isso. Viver. Fumar. E a caixa...
6.
Seu neto não irá fumar seus cigarros, nem gastar seus cinqüenta reais, e nem usar a sua identidade para comprar bebidas (e como vocês eram parecidos). Seu neto apenas caminhará até a praia, com você nas mãos. A caixa. Irá jogá-lo no mar. A caixa. E quem sabe tudo não seja muito mais do que o mar. Ah, o mar...

Um comentário:

Anônimo disse...

o Merlinzão éh fódaa..PRONTOFALAY *-*